O desafio de liderar pessoas na construção civil

Uma pesquisa veiculada no jornal Estadão informava que a falta de mão de obra qualificada no Brasil estava se agravando. Na pesquisa apontou-se que das empresas da construção civil pesquisadas 91% tem dificuldade na contratação de profissional, especialmente gerente de projetos e trabalhador manual.

Para consolidar a informação, outra pesquisa, agora elaborada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), informava que 74% das empresas do setor têm dificuldade com a falta de especialização profissional e especialista afirmam que o problema deve persistir por no mínimo cinco anos.

Além de outros fatores, a escassez de mão de obra na construção civil trouxe a necessidade de adequação do perfil dos líderes que atuam neste setor. Palavras como comunicação, retenção, motivação, integração, equipe são cada vez mais comuns na indústria da construção civil.

Na construção civil são diversas empresas diferentes que atuam num projeto em grupo. O primeiro entrave para o sucesso do projeto é que este grupo, que muitas vezes se reúne pela primeira, necessita de coordenação e liderança para que trabalhem mais unidos e coesos a fim de alcançarem o resultado do projeto com qualidade, custos reduzidos e no tempo previsto.

Neste aspecto, Buch e Sander (2005) afirmam:

“Os projetos da construção civil (…) são geralmente organizados como redes de companhias independentes – funcionários e especialistas contratados que são engajados para contribuir em áreas específicas de atuação. Neste modo tradicional de organizar os projetos da construção civil, a coordenação é efetuada através de encontros no canteiro onde o gerente/contratante cuida dos interesses de cada parte em separado. Com isso as atividades específicas fazem parte do contrato individual de especialistas e funcionários, o que significa que cada trabalhador cuida de seu próprio interesse, praticamente inexistindo interação entre equipes”.

Na Construção Civil o líder deve evitar erros de uma administração clássica, mas que até hoje são cometidos por vários líderes e que acabam contribuindo para perda de qualidade e produtividade.

Em nossos treinamentos sobre Liderança na Construção Civil, ministrados através da Corporativa Brasil, sempre falo: “Os líderes que atuam na construção civil precisam entender que a ‘Obra’ é um Sistema em que as empresas de construção civil são subsistemas menores e interagem entre si para o alcance dos objetivos”.

A escassez de mão de obra qualificada no setor da construção civil traz à tona uma questão crucial: como lideramos pessoas nestes ambientes? Há anos nossa preocupação estava centrada apenas em produzir mais com menos custo dentro do prazo. Conforme Limmer (1997) “O gerenciamento de um projeto envolve a coordenação eficaz e eficiente de recursos para obter-se o produto final desejado atendendo-se a parâmetros preestabelecidos de prazo, custo, qualidade e risco”. Porém não podemos esquecer que o recurso mão de obra está cada vez mais escasso, requerendo dos encarregados, engenheiros e demais gestores de obras habilidades humanas para conduzir estas pessoas ao alcance dos objetivos.

Hoje a exigência é produzir mais com menos recursos, não afetando a qualidade e segurança. Parace piada, mas muitas vezes durante a formação dos técnicos de segurança do trabalho a construção civil tem sido modelo quando nos referimos a um dos setores mais críticos quando nos referimos à saúde e segurança do trabalhador. Líder que é líder cuida da Saúde e Segurança do trabalhador.

Skipper e Bell (2006) já afirmavam que “Nos últimos anos tem crescido o reconhecimento na indústria da construção de que o sucesso de projetos é dependente das qualidades da liderança (…) e de suas habilidades em obter o melhor das suas equipes”. Neste sentido, a qualidade da comunicação entre líderes e liderados na construção civil é pontada como uma das habilidades mais importantes para uma liderança mais eficaz.

A Coação – forçar, coagir ou constranger mediante pressão, coerção ou compulsão – não é mais aceitável na construção civil. Este modelo de liderança extremamente autocrático tem sido rejeitado pelos departamentos de Gestão de Pessoas em diversas companhia da construção civil, até por que, as ações movidas por danos morais têm crescido assustadoramente.

O trabalhador da construção civil não é mais uma mera peça de uma engrenagem, no modelo taylorista, mas como diz Sacomano (2004) “O operário reage como um membro de um grupo social que influencia suas ações individuais”. Suas necessidades psicológicas e materiais devem ser identificadas e satisfeitas para obtenção de ganhos de produtividade, pois os funcionário parados por falta de material, equipamento ou por atraso nos recebimentos se sentem desestimulados.

Diante do exposto acima concluímos que urge o desenvolvimento de líderes, sejam eles Engenheiros, Encarregados, Mestres de Obra, entre outros, com habilidades humanas capazes de conduzir suas equipes ao alcance dos objetivos individuais e organizacionais na Construção Civil. Os cursos técnicos, as universidades, as empresas devem incluir na grade de curricular destes profissionais matérias como Liderança, Gestão de Pessoas, Relacionamento Interpessoal, Pensamento Sistêmico, a fim de contribuir para a competitividade do setor. Líder que é líder cuida!

Sobre o autor:

Prof. Márcio Silva, atualmente é mestrando em Psicologia Social pela PUC-SP, tendo como objeto de estudo a “evolução das práticas de gestão de pessoas em ambientes industriais brasileiros”. Estudou Ciências Econômicas pela UEFS, Administração Industrial pela USP, graduado em Marketing, atuando como consultor sênior da Corporativa Brasil e professor do curso de pós-graduação do ICTQ (Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade Industrial). Consultor de Treinamento & Desenvolvimento, Gestão de Pessoas e Planejamento Estratégico, Silva é palestrante há mais de 12 anos nas áreas de Liderança, Gestão de Pessoas, Gestão de Clientes e Planejamento Estratégico.

Participou como palestrante da Fispal Tecnologia (29ª Feira Internacional de Embalagens, Processos e Logística para as Indústrias de Alimentos e Bebidas) e do Forum Industrial promovido pela AMCHAM-Campinas. Jurado do Prêmio Nacional de Telesserviços 2011. Autor do livro “Clientes por Todos os Lados” pela Editora Diário (SP), e de diversos artigos publicados na mídia impressa e on-line, tendo como principais clientes: Hershey’s do Brasil, Faet, Royal Canin, Bimbo do Brasil, Maringá Turismo, Cia de Canetas Compactor, FTD Editora, H-Buster, Cremer, GGF Brasil, Magenta (Grupo Aché), IMMA, Arbor do Brasil, Sodramar, SAE Towers, Brady Corp, PQ Silicas, Metalvic, Aliança Metalurgica, CELEPAR – Companhia de Informática do Estado do Paraná, Deca S/A, entre outros.

Acesse: http://www.corporativabrasil.com.br/cursos-in-company/lideranca-aplicada-a-construcao-civil.html

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