Como liderar pessoas no chão de fábrica

Afinal, como liderar pessoas no chão de fábrica?

Liderança é um tema amplo e de difícil compreensão. São várias teorias e estudos que tentam discutir e desmistificar tal tema, mas a grande maioria concorda com a definição de Hunter (2004): “Liderança é a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum”.

O autor conceitua habilidade como capacidade adquirida, entendendo que a liderança é uma habilidade que pode ser aprendida e desenvolvida por alguém que tenha desejo e pratique ações adequadas. Neste momento você deve estar suspirando de alívio: “Ufa! Eu ainda tenho jeito!”.

Agora uma questão é levantada nesta definição: se liderar é influenciar outras pessoas, então como desenvolver essa influência, levando as pessoas a fazerem o que desejamos?

Para responder a questão, Hunter recorre às definições de poder e autoridade de Max Weber, um dos ilustres fundadores da sociologia, em seu livro “A teoria da organização econômica e social”:

  1. a) Poder é a capacidade de obrigar, por causa de sua posição ou força, os outros a obedecerem à sua vontade, mesmo que eles preferissem não fazê-lo.
  2. b) Autoridade é a habilidade de levar os outros a fazerem de boa vontade o que é solicitado ou determinado.

Neste sentido, poder é definido como uma faculdade e autoridade é vista como uma habilidade, ou seja, não é necessário ter inteligência ou coragem para exercer poder. Porém, para estabelecer autoridade sobre as pessoas é requerida habilidade especial.

Pessoas podem assumir cargos de poder porque tem habilidade técnica, são parentes ou amigas de alguém, porque herdaram dinheiro ou poder. Já a autoridade não dá pra ser comprada, nem vendida, nem dada ou tomada. Ela está relacionada a quem você é como pessoa, ou seja, seu caráter e a influência que estabelece sobre outras pessoas.

Nesta concepção, para ser um líder no chão de fábrica, é necessário antes de tudo “ter seguidores”. As pessoas que atuam no chão de fábrica devem querer seguir você!

Falamos anteriormente que “gerenciar está relacionado à eficiência, ou seja, a correta utilização de recursos para alcançar objetivos, modo se fazer as coisas (método)”. Muitas vezes achamos que estamos gerenciando corretamente nossas operações, controlando tudo, porém sem o envolvimento das pessoas nossos resultados podem ser comprometidos, afinal não estamos trabalhando com máquinas apenas, mas também com “gente”. Quem gerencia um processo não é necessariamente um bom líder.

As tarefas precisam ser feitas e as pessoas precisam obedecer a prazos, regras e orçamentos, cabendo ao líder gerenciar isso para que tudo ocorra conforme o planejado. A função gerencial de um líder que atua no chão de fábrica é garantir que as tarefas são realizadas da maneira certa, a tempo e conforme o padrão e orçamento.

Agora cabe aqui uma distinção entre gerenciamento e liderança: as pessoas não querem, necessariamente, seguir o “gerente”, mas sim suas regras. Já na liderança eficaz no chão de fábrica, de modo diferente, os trabalhadores se sentem influenciados a seguir a direção do líder de bom grado.

O gerenciamento faz com que as pessoas andem na mesma direção – com suas regras, padrões, procedimentos, recompensas e punições. Mas somente uma liderança eficaz consegue desenvolver metas e crenças comuns sobre o modo correto de atingir os objetivos em grupo. No entanto, como abordado anteriormente, liderança sem gerenciamento não funciona: o líder deve orientar, dar diretrizes, planejar, fornecer recursos necessários para a execução da tarefa e controlar, mas acima de tudo levar as pessoas fazerem de bom grado!

Imagine se sua equipe de fábrica só faz seu trabalho corretamente – conforme os requisitos de qualidade, tempo e segurança – somente com as ordens e controle de quem gerencia o processo, sem iniciativa, comprometimento e motivação? Neste caso parece que o líder segue extremamente o perfil básico da autocracia, onde as pessoas apenas devem obedecer suas ordens, as decisões são unilaterais, pertencentes a “quem manda”.

Liderança Autocrática: na Liderança autocrática o líder é focado apenas nas tarefas. Este tipo de liderança também é chamado de liderança autoritária ou diretiva. O líder toma decisões individuais, desconsiderando a opinião dos liderados.

Os efeitos colaterais deste perfil no médio e longo prazo – apesar de no curto prazo ter boa produção –  será a rotatividade, absenteísmo (faltas, atrasos, saídas), problemas de qualidade e segurança, gerando assim baixa produtividade e maiores custos. Poucos sistemas guiados por líderes autocráticos são auto-sustentáveis: tudo tende a decair com o tempo. Uma liderança eficaz é a única maneira de manter e desenvolver uma cultura de qualidade, produtividade e satisfação.

É papel do líder eficaz integrar produção, qualidade e pessoas, identificando suas competências, contratando e desenvolvendo as melhores, treinando-as para seguirem um trabalho padronizado e instruindo-as sobre como identificar e resolver problemas no chão de fábrica. Este é o perfil dos líderes que seguem o Modelo Toyota.

Falando em Toyota, os líderes que seguem este modelo têm que ser exemplo. Eles são parte da equipe e exemplificam os comportamentos que querem ver em seus trabalhadores, colocando a segurança em primeiro lugar e além de os ouvirem. Os líderes da Toyota dão o melhor de si mesmo para desenvolver nas pessoas os valores, as crenças e as capacitações para que sejam responsáveis por suas ações.

Assim o líder é o exemplo e influencia as pessoas a seguirem-no e o gerenciamento será uma rotina comum.

Imagine um líder que ordena a seu empregado que organize uma área específica de trabalho. Organizar o local de trabalho parece ser muito genérico, o trabalhador pode ser tentado a fazer “do seu jeito”. Agora pense no mesmo líder solicitando que o trabalhador o ajude na organização do local, dando dicas e orientações de como devem ser arrumadas as caixas, ferramentas e a limpeza do chão. Além disso o líder explica ao trabalhador que a limpeza urgente deve-se a uma visita de um dos diretores ao chão de fábrica e que o local parecia fora do padrão de organização e limpeza e que o escolheu por saber de seu cuidado em sempre manter sua área impecável. Para completar o líder ainda acompanha o trabalho executado de tempo em tempo auxiliando e ajudando a corrigir,

Sistema Toyota de Produção: sistema de produção desenvolvido pela Toyota entre 1948 e 1975, que aumenta a produtividade e a eficiência, evitando o desperdício, como a de tempo de espera, superprodução, gargalos de transporte e inventário desnecessário, entre outros. Foi desenvolvido por Taiichi Ohno.

conforme o padrão planejado. Deste modo não haverá surpresa ao final da tarefa é o trabalhador a executará de bom grado.

Delegar responsabilidade, orientando, ajudando e acompanhando é bem diferente de delegar apenas tarefas. O segredo é dotar seus seguidores com autoridade e responsabilidade nas tarefas do chão de fábrica.

No Sistema Toyota de Produção, “líderes conscientes monitoram o desempenho individual e coletivo, responsabilizando as pessoas por suas ações e assumindo responsabilidades por suas atividades”. Porém, eles não estão preocupados em “pegar as pessoas no erro”, mas sim em “confirmar o processo”, zelando para que tudo ocorra conforme o planejado e que os desvios sejam corrigidos – solução de problemas. Este é o ambiente ideal para o aprendizado e desenvolvimento das pessoas que atuam no chão de fábrica.

 

Este conteúdo faz parte do curso “Liderança no chão de fábrica”, ministrado pelo professor Márcio Silva da Corporativa Brasil:

Para informações sobre o autor, acesse: http://www.corporativabrasil.com.br/cursos-de-atualizacao/curso-lideranca-no-chao-de-fabrica.html

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